A soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem

 

Não proponho aqui neste artigo, fazer qualquer tipo de tratado teológico sobre o calvinismo ou alguma posição contrária a essa corrente doutrinária. Até porque essa questão "Soberania divina e o livre-arbitrio" vem dando pano pra manga a séculos, desde o ínicio do cristianismo. Mas, como sou interessado, e muito, nesses assuntos que antes eram reservados a meios acadêmicos, não me custa nada expor aqui minha observação acerca desse tema altamente complexo e que envolve diversos aspectos da teologia reformada. Como não me limito a comer pela mão dos outros, esperando ter tudo mastigado, e já que tenho a disponibilidade de ter acesso as mesmas ferramentas teológicas e filosóficas que todos tem, também decide fazer minhas considerações a respeito. Melhor isso do que ficar transitando e boiando quando tal assunto é sugerido.

Não sou calvinista nem arminiano, sou, como sempre afirmo, de Cristo, e sobre esse assunto, minha mente começou a faiscar após ter lido em certo artigo, a seguinte objeção:

"não há como conciliar estas duas crenças opostas entre si: a presciência divina e o livre-arbítrio humano. Ou Deus conhece o futuro ou não conhece; e se Ele conhece, o futuro é inalterável. Portanto, não há como ser arminiano; não há como afirmar que Deus conhece o futuro por simples previsão, pois eventos livres não podem ser previstos. Ou você aceita a soberania de Deus sobre o arbítrio humano como ensinada pelo calvinismo, ou você cai no erro do teísmo aberto, que ensina que Deus não conhece totalmente o futuro e pode mudar de idéia conforme as circunstâncias".

Depois de ler isso, fiquei meio que duvidoso, e me perguntei, será que sou "arminiano"? Pois, os calvistas interpretam a soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem na salvação da seguinte maneira... É a  vontade soberana de Deus que apenas alguns (os eleitos), sejam regenerados e depois sempre permaneçam salvos. A graça de Deus portanto não pode ser resistida pelo homem, dessa forma a salvação nunca pode ser aceita ou negada pela simples vondade humana. 

Como eu penso diferente deles, será que sou arminiano?? Bom, depois que eu pensei nisso, se sou ou não, cheguei a conclusão definitiva que sou mesmo é CRISTÃO, e daqueles que crêem unicamente no que está exposto claramente nas escrituras e concluem que se uma doutrina, um ensinamento é demasiadamente complexo e dificil de entender, então devo rejeita-lo. E por que? Ora, porque "As coisas encobertas são para o Senhor Deus, porém as reveladas são para nós" (Deut. 29:29).

E como eu não me atrevo a ir além do que está escrito, cheguei a conclusão de que me parece que o calvinismo, ou pelo menos o autor do texto destacado acima, negligencia que dentro do contexto em que o homem tenha livre-arbitrio, baseado nas livres escolhas já feitas (esperando para ver o que a pessoa vai fazer) e sabendo de modo onisciente o que a pessoa fará de acordo com pré-conhecimento, Deus pode determinar o futuro pelo livre-arbítrio, já que ele sabe oniscientemente com certeza como as pessoas agirão em liberdade. Então, o futuro é determinado do ponto de vista do conhecimento infalível de Deus, mas livre do ponto de vista da escolha humana. Dessa forma, creio eu que o livre-arbitrio humano não afeta em nada a soberania divina. Mas vejamos a clareza da seguinte afirmação, que diz que, Deus quer que todas as pessoas sejam salvas e nenhuma se perca:

 

"O Senhor não retarda a sua promessa, como alguns a julgam demorada. Ele é longânimo para convosco, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento". 

(2 Pedro 3.9)

 

[Deus], ​​que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. 

(1 Tm 2.4)

Deus quer que todos se salvem, que niguém se perca, e essa é a vontade soberana dEle, mas, muitas pessoas se perdem e rejeitam a salvação que Ele oferece. Logo, diferente do resto da criação, que obedece a todos os designios do Todo-Poderoso, o homem tem um uma atitude diferente, vejamos o vento, as ondas, os animais, as plantas  e até os insetos que sempre obedecem o que Deus ordena:

 

Mas o Senhor providenciou um grande peixe para engolir Jonas, e Jonas ficou dentro do peixe três dias e três noites. (Jonas 1.17)

 

E o Senhor ordenou ao peixe, e ele vomitou Jonas em terra seca. (Jonas 2.10)

 

E fez o Senhor Deus nascer uma aboboreira, e ela subiu por cima de Jonas, para que fizesse sombra sobre a sua cabeça, a fim de o livrar do seu enfado; e Jonas se alegrou em extremo por causa da aboboreira (Jonas 4.6)

 

Mas ao amanhecer do dia seguinte, Deus providenciou um verme, que mastigou a videira para que ela seca-se. (Jonas 4.7)

 

E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança. (Marcos 4.39)

 

Percebe-se claramente que quando se trata do homem, Deus soberanamente deu-lhe uma escolha de obedecer ou desobedecer. O livre-arbítrio do homem é a chave para entender por que a maioria das pessoas irá perecer no inferno mesmo que Deus queira que todos sejam salvos. Assim, a vontade de Deus em relação a salvação do homem pode ser resistida ou recusada, pelo homem para sua própria condenação eterna contrariando evidentemente o que o calvinismo em todas as suas variações afirma. vejamos o que diz as escrituras:

 

"E não quereis vir a mim para terdes vida...

Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais." João 5.40, 43

 

"Eles perecem, porque não receberam o amor da verdade para serem salvos.
E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira;
Para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniquidade". 
2 Ts 2.10-12

 

Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. Atos 7.51

 

"Mas os judeus, que tinham permanecido incrédulos, excitaram os ânimos dos pagãos contra os irmãos." Atos 14.2

 

"Mas alguns deles se endureceram e se recusaram a crer, e começaram a falar mal do Caminho diante da multidão. Paulo, então, afastou-se deles. Tomando consigo os discípulos, passou a ensinar diariamente na escola de Tirano." Atos 19.9

 

"Ele enviou os seus servos aos que tinham sido convidados para o banquete para dizer-lhes para vir, mas eles se recusaram a vir." Mat 22.3

 

"Como, então, escaparemos nós se agora desprezarmos a mensagem da salvação, tão sublime, anunciada primeiramente pelo Senhor e depois confirmada pelos que a ouviram." Hb 2.3

 

 

Veja que a vontade soberana de Deus, quer que todos se salvem, e que se Deus determinou que alguns não iriam se salvar, Jesus, que é a expressão de Deus a nós então, estava completamente "desinformado sobre o calvinismo" quando ficava indignado ao ver a incredulidade do povo de algumas cidades (como Nazaré). Sera que Ele teria esquecido que foi o próprio Pai que havia predeterminado que eles fossem incrédulos? Segundo o calvinismo foi Deus que predestinou as pessoas a viverem separadas dele – então por que no lamento sobre Jerusalém, Jesus disse "quantas vezes eu quis salvá-los, mas vocês não quiseram!"? Estaria Jesus delirando? Vejam a declaração:

"Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os enviados para você, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste!" Lucas 13.34

Considere os demais versos que mostram que as escrituras também desconhecem a tal objeção calvinista:

 

"Eles foram abrasados pelo intenso calor e amaldiçoaram o nome de Deus, que tinha o controle sobre estas pragas, mas eles se recusaram a arrepender-se e a glorificá-lo."(Ap 16.9)

 

"E dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua fornicação; e não se arrependeu."
(Ap 2.21)

 

"Certamente, se eu lhes enviasse você, eles o ouviriam.
Mas a nação de Israel não vai querer ouvi-lo porque não quer me ouvir, pois toda a nação de Israel está endurecida e obstinada." (Ez 3.6-7)

 

"Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado;" 2 Pedro 2:21

 

"Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis." 2 Pedro 1:10

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". Hebreus 6: 4-6

“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, Mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue da aliança com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça? Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo." Hebreus 10.26-30

“Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.” Mateus 24.13

 

Da mesma forma, na seguinte passagem Jesus convida a  todos para serem salvos, ou seja, a entrar pela porta estreita. Então lemos que muitos não vão entrar pela porta estreita, mas em vez disso, entrarão no grande portão da destruição, ainda que seja a vontade de Deus que eles sejam salvos:

 

"Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram." Mat 7:13,14

 

 

 

Entendendo o Livre-Árbitrio

Nenhuma ação pode ser desprovida de causa, já que isso viola o princípio racional fundamental segundo o qual todo evento tem uma causa. E as ações de uma pessoa não podem ser causadas por outros, nem por Deus ou pelo Diabo como afirmam alguns, pois nesse caso as ações não seriam pessoais. Além disso, se as ações da pessoa são causadas por outro, como responsabilizá- la por elas? 

O calvinismo afirma que o arbítrio humano é influenciado, externamente, por Satanás e pelo mundo e, internamente, pela carne (natureza pecaminosa) e que o arbítrio humano dos crentes em Jesus é influenciado também pelo Espírito Santo, que neles habita... Dessa forma, TODO ser humano, em suas escolhas/opções, é influenciado, tanto externamente quanto internamente. Então, a rigor, NÃO existe LIVRE arbítrio. Só que negligenciam que ser influenciado é diferente de agir como que não houvesse livre escolha. Uma pessoa recebe a influência de ser um criminoso, mas isso não estabelece que ela deva ser um criminoso por que foi influenciada por isso, e da mesma forma, muitas pessoas são influênciadas a serem bons cidadãos, mas nem sempre tal influência é adotada, indicando uma escolha entre receber ou recusar tal influência. Além do mais, isso implica em acreditar que tanto quem crê em livre-arbitrio e quem não crê, estão determinados a fazer o que fazem. O problema com isso é que os calvinistas acreditam que quem crê em livre-arbitrio está errado e deve mudar sua posição. Mas, “dever mudar” implica liberdade para mudar, o que é contrário ao determinismo. Se Deus é a causa de todas as ações humanas, então os seres humanos não são moralmente responsáveis. E não faz sentido louvar os seres humanos por faze- rem o bem nem culpá-los por fazerem o mal. Se acreditarmos que o livre arbirtrio é influenciado externa ou internamente, então teriamos que acreditar que uma pessoa não pode deixar de atuar da maneira como o faz, e estritamente falando, não deve ser louvada por ser boa nem culpada por ser má. O homem é simplesmente um escravo das circunstâncias, sejam elas advinda de satanás, mundo ou Deus. E também, tal lógica implicaria que Deus também é responsável pela ação do diabo em influenciar nosso arbitrio, logo, Deus é conivente com a tentação, logo ele condenar alguém seria contradição a sua natureza JUSTA.

É claro que em Adão todos pecaram, e merecem a morte e a condenação, logo, Deus não seria injusto em condenar os que são predestinados a morrer. Mas, os calvinistas negligenciam que da mesma forma que estão todos predestinados a morrer em Adão, em Jesus todos são predestinados a salvação: 

João 1: 12 – “Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu Nome.” 

Tito 2: 11 – “Porque a Graça de Deus se há manifestada, trazendo salvação a todos os homens.” 

II Pedro 3: 9 – “ ... não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” 

Apocalipse 22: 17 – “...quem quiser receba de graça a água da vida.”

Dessa forma, se admitirmos que haja um “eu” (sujeito) que é mais que o objeto(ação). Isto é, "eu ser" transcende ao "eu fazer". Então, somos mais do que aquilo que fazemos, somos mais do que nossas escolhas, prova disso é que podemos mudar de escolha, ou de atitude, mas mesmo assim as vezes não mudamos a nossa maneira de ser. Esse “eu” que transcende a objetificação é livre. O cientista que tenta estudar o eu sempre transcende a experiência. O cientista está sempre do lado de fora olhando para dentro. Na verdade, “eu” sou livre para “me” rejeitar. Isso não é determinado pela objetividade, nem está sujeito a ficar preso à análise científica. Como tal, o “eu” é livre. Logo, o livre-arbitrio faz parte de nosso "eu" de nosso ser e fazendo parte de nosso ser...com toda certeza, somos nós mesmos que influênciamos o nosso fazer e isso de maneira clara nos responsabiliza por nossas escolhas e Deus assim age justa e corretamente condenando aqueles que optam na ação de rejeitar a sua salvação. Isso sim foi pre-estabelido, a condenação para os que rejeitam, e a salvação oferecida de graça, para todos os que realmente desejam ser salvos. Prova disso é que o FAZER não implica em SER, por exemplo, se praticarmos boas obras, isso indica que sejamos salvos?? Não! Mas SER salvo, implica em FAZER boas obras que atestam a nossa salvação. É isso ou estou enganado? 

Essa minha liberdade de escolha, afeta de alguma maneira a soberania divina?

De forma alguma, pois, o livre-árbitrio nos foi dado para fazer escolhas morais. Só a liberdade absoluta seria contrária à soberania absoluta de Deus. Mas a liberdade humana não é uma liberdade absoluta, nosso livre-árbitrio é limitado apenas a escolhas morais. Os seres humanos não estão livres para tomar decisões que são exclusivas a Deus, por exemplo, a ninguém foi dado a liberdade de condenar outra pessoa ao inferno, ou de oferecer a salvação a alguém. Só quem tem toda essa liberdade para fazer isso e tudo o mais, é Deus, e os seres humanos não estão livres para se tornarem um Deus. Um ser contingente não pode tornar-se um Ser Necessário. Pois um Ser Necessário não pode ser criado. Deve ser sempre o que é. E só Deus É o que É! O poder do livre-arbitrio é nos dado por Deus, não mas o exercício da liberdade de escolha é causado pela pessoa. O eu é a primeira causa das ações pessoais. E dessa forma, somos responsáveis por nossas escolhas e por elas seremos cobrados.

O nosso livre-árbitrio contrária a graça de Deus?

De maneira alguma, pois o livre-arbítrio é um dom gracioso. Além disso, a graça especial não é imposta coercivamente à pessoa. A graça, pelo contrário, age persuasivamente. A capacidade da pessoa receber ou não, o dom gracioso da salvação de Deus não é a mesma coisa que trabalhar por ele. Pensar assim é dar crédito ao receptor do dom, e não ao Doador.

Por exemplo,  mesmo que um pedinte estenda a mão para receber uma esmola que por voçê foi oferecida, isso não diminue em nada o fato de que é você quem está sendo gracioso em dar esmola, o mendigo não tem graça alguma, antes, ele é alvo de sua boa vontade... e mesmo que ele rejeite a sua boa vontade em ajuda-lo, isso também não diminue a sua atitude. Quem perdeu foi ele e não voçê. Da mesma forma assim é em nossa salvação. Ora e porque?

Porque a salvação, sempre e somente, procede de Deus; nunca procede do homem. E esse proceder de Deus, chamamos de GRAÇA e o nosso ato de aceitar essa graça, ou, usando a linguagem teológica: qual é o instrumento que se apropria da justiça de Cristo nos ofericida de graça? A resposta é: "pela fé em Jesus Cristo." A fé é a mão, por assim dizer, que recebe o que Deus oferece. Que essa fé é a causa instrumental da justificação prova-se pelas seguintes referências: Rom. 3:22; 4: 11; 9:30; Heb. 11:7; Fil. 3:9.

Usa-se, às vezes, a palavra "graça", no sentido íntimo, para indicar a operação da influência divina (Efés. 4:7) e seus efeitos (Atos 4:33; 11:23; Tia. 4:6; 2 Cor. 12:9). As operações desse aspecto da graça têm sido classificadas da seguinte maneira:

Graça proveniente (literalmente, "que vem antes") é a influência divina que precede a conversão da pessoa, influências que produzem o desejo de voltar para Deus. É o efeito do favor divino em atrair os homens (João 6:44) e convencer os desobedientes. (Atos 7:51.) Essa graça, às vezes, é denominada eficiente, tornando-se eficaz em produzir a conversão, quando não encontra resistência. (João 5:40; Atos 7:51; 13:46.) A graça efetiva capacita os homens a viverem justamente, a resistirem à tentação, e a cumprirem o seu dever. Por isso pedimos graça ao Senhor para cumprir uma determinada tarefa.

A graça habitual é o efeito da morada do Espírito Santo que resulta em uma vida plena do fruto do Espírito (Gál. 5:22,23).

A graça é transação de Deus com o homem, absolutamente independente da questão de merecer ou não merecer. "Graça não é tratar a pessoa como merece, nem tratá-la melhor do que merece", escreveu L. S. Chafer. "É tratá-la graciosamente sem a mínima referência aos seus méritos. Graça é amor infinito expressando-se em bondade infinita." E é em rejeitar essa graça, que muitos são condenados e não por que foram pré-destinados a serem condenados. lembre-se do que eu disse antes... 

Deus quer que todas as pessoas sejam salvas e nenhuma se perca:

"O Senhor não retarda a sua promessa, como alguns a julgam demorada. Ele é longânimo para convosco, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento". (2 Pedro 3.9); [Deus], ​​que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1 Tm 2.4).

O princípio único que a graça de Deus usa para restaurar-nos à sua imagem e ao seu favor é a fé. Nascida, como é, no pecado, herdeira da miséria, a alma carece duma transformação radical, tanto por dentro como por fora; tanto diante de Deus como diante de si própria. A transformação diante
de Deus denomina-se justificação; a transformação interna espiritual que se segue, chama-se regeneração pelo Espírito Santo. Esta fé é despertada no homem pela influência do Espírito Santo,
geralmente em conexão com a Palavra. A fé lança mão da promessa divina e apropria-se da salvação. Ela conduz a alma ao descanso em Cristo como Salvador e Sacrifício pelos pecados; concede paz à
consciência e dá esperança consoladora do céu.

Sendo essa fé viva e de natureza espiritual, e cheia de gratidão para com Cristo, ela é rica em boas obras de toda espécie. "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Efés. 2:8,9).

O homem nenhuma coisa possuía com que comprar sua justificação. Deus não podia condescender em aceitar o que o homem oferecia; o homem também não tinha capacidade para cumprir a exigência divina. Então Deus graciosamente salvou o homem, sem pagar este coisa alguma —"gratuitamente pela sua graça" (Rom. 3:24). Essa graça gratuita é recebida pela fé.

Não existe mérito nessa fé, como não cabem elogios ao mendigo que estende a mão para receber uma esmola. Esse método fere a dignidade do homem, mas perante Deus, o homem decaído não tem mais dignidade; o homem não tem possibilidades de acumular bondade suficiente para adquirir a sua salvação. "Nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras da lei" (Rom. 3:20).

Se a fé em si não é meritória, representando apenas a mão que se estende para receber a livre graça de Deus, que é então que lhe dá poder, e que garantia oferece ela à pessoa que recebeu esse dom gratuito, de que viverá uma vida de justiça?

Ora, pela fé, nos unimos a Cristo, e é justamente nessa união que se descobre o motivo e o poder para a vida de justiça.

"Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo"(Gál. 3:27). "E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências"  (Gál.5:24).

A fé não só recebe passivamente mas também usa de modo ativo aquilo que Deus concede. É assunto próprio do coração (Rom. 10:9,10; vide Mat. 15:19; Prov. 4:23), e quem crê com o coração, crê também com suas emoções, afeições e seus desejos, ao aceitar a oferta divina da salvação. Pela fé, Cristo mora no coração (Efés. 3:17). A fé opera pelo amor (a "obra da fé"... 1Tess. 1:3), isto é, representa um princípio enérgico, bem como uma atitude receptiva. A fé, por conseguinte, é poderoso motivo para a obediência e para todas as boas obras. A fé envolve a vontade e está ligada a todas as boas escolhas e ações, pois "tudo que não é de fé é pecado" (Rom. 14:23).

Portanto a fé inclui a escolha e a busca da verdade (2 Tess. 2:12) e implica sujeição à justiça de Deus (Rom.10:3). Pois o justo vive pela fé, e senão tiver fé, Deus não tem prazer nele.

 

Em resumo:

 

● Deus quer que todos os homens sejam salvos.

● A soberania de Deus permite ao homem o livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação.

● Muitos, ao contrário de alguns, vão para o inferno no final devido rejeitarem a oferta de salvação.

 

Entende-se isso biblicamente da seguinte maneira:

- Em Adão todos são predestinados a morrer: 
I Coríntios 15: 22 – “Porque assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão glorificados em Cristo.” 

- Em Jesus todos são predestinados a salvação: 
João 1: 12 – 
“Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu Nome.” 
Tito 2: 11 – “Porque a Graça de Deus se há manifestada, trazendo salvação a todos os homens.” 
II Pedro 3: 9 – “ ... não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” 
Apocalipse 22: 17 – “...quem quiser receba de graça a água da vida.”

 

A incompreensão da soberania de Deus e o livre-arbítrio do homem leva a erros doutrinais terríveis. As perguntas abaixo feita por adeptos do calvinismo demonstram bem isso:

 

1- Se a aceitação a Jesus é pela capacitação divina, então se a pessoa não aceitar a Jesus é porque Deus não a capacitou? Se é pela capacitação divina então cremos que Deus capacita uns e outros não. Se eu escolho pela capacitação divina, então em ultima instância quem escolhe é Deus e a minha escolha é fruto da pré-escolha Dele.

Resposta:  

Essa pergunta capciosa põe em xeque apenas a posição calvinista, pois negligencia que todos são chamados a serem salvos, mas poucos se disponibilizam a serem capacitados para salvação. Se eu não me disponho a estudar no exame pré-vestibular antes de entrar em uma Universidade, e após o teste eu não for aprovado, isso não diminue a credibilidade do exame, nem da Universidade, diminue  a minha, que optei a não buscar capacitação, nem a receber essa capacitação que é de maneira graciosa me oferecida. Portanto a pergunta é irrelevante. O calvinismo é quem afirma que quem não aceita a salvação oferecida é porque Deus não o capacitou a ser salvo, evidentemente um absurdo completo devido ao extremo de acreditar que o livre-árbitrio de alguma forma diminue a soberania divina.

Mas como eu disse acima, é a propria soberania de Deus que permite ao homem o livre-arbítrio para aceitar ou rejeitar a salvação. Esqueceram que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus?? Ora, isso inclue a capacidade de escolher entre rejeita-lo e ama-lo. Sendo, assim de certa forma, é Deus quem capacitou o homem com o atributo de livre escolha, mas isso não siguinifica que nossa escolha é fruto da pré-escolha dEle no sentido fixo, especulativo, mas sim no sentido prático. Portando essa resposta também se aplica a segunda pergunta calvinista, repetindo " O livre-arbítrio do homem é a chave para entender por que a maioria das pessoas irá perecer no inferno mesmo que Deus queira que todos sejam salvos.

Assim, a vontade de Deus em relação a salvação do homem pode ser resistida ou recusada, pelo homem para sua própria condenação eterna contrariando evidentemente o que o calvinismo em todas as suas variações afirma." De certa forma, Deus, em razão de seu conhecimento, previu que essas pessoas aceitariam o evangelho e permaneceriam salvos, e predestinou para essas pessoas uma herança celestial. Ele previu o destino delas, mas não o fixou.

 

 

2 - Quem em última análise converte ou endurece corações ?. Ou seja, livre arbítrio em salvação é uma falácia, pois a vontade humana jamais suplantará a vontade divina.

Resposta:

E quem disse que a vontade humana suplanta a vontade divina?? Depois os calvinistas vem me dizer que nós distorcemos o que o calvinismo diz, vê se pode isso....carece de prova essa pergunta capciosa acima.

Mas, o que é pergunta capciosa??

É uma afirmação disfarçada de pergunta. E em reposta a ela, eu digo, que nunca consideraram que o atributo do livre-arbítrio humano não feri a soberania divina, vai além disso, o livre-arbitrio confirma a soberania divina. 

Como assim? Respondo...

Assim como a salvação é um dom gratuito de Deus para nós hoje após a queda de Adão, o livre-arbitrio é um dom gratuito de Deus em nós, dado no ato da criação. Deus é responsável por nos dar esse atributo, mas ele não é responsável pelo uso que fazemos dele. É aqui que se manifesta a soberania divina em seu amor que providenciou a nossa salvação. Deus já tinha conhecimento de que o homem pecaria, que aplicaria de forma errada esse atributo, e por isso desde já estabaleceu o meio pelo qual deveriamos ser salvos. Ele predestina " a todos os que querem" a serem salvos — e esse plano é bastante amplo para incluir a todos que realmente desejam ser salvos.

Por que penso assim? ora, e  por acaso foi Deus quem predestinou fixando que Adão e Eva iriam cair em pecado, trazendo conseqüências a todos os humanos? Ou essa foi uma escolha de Adão e Eva?

Se a graça de Deus é mesmo Irresistível (como alega o calvinismo) porque Deus não impediu que Adão e Eva pecassem? Dessa forma não seria preciso nem mesmo a morte e o sofrimento de Jesus.

Ou seja, até mesmo a atitude de rejeitamos a Ele, pecando, foi prevista, pré-visualizada, mas não fixada por Ele mesmo, pois ele estaria indo contra a sua imagem impressa em nós, e essa imagem inclui a capacidade de escolher entre obedecer e desobedecer, Deus não se surpreende por alguém o rejeitar. Tanto que ele deseja que todos sejam salvos e que ninguém pereça. Dessa forma, o livre-arbitrio humano é da vontade de Deus para nós e não entra em conflito com sua vontade soberana. Antes como eu disse, corrobora com a vontade soberana de Deus de que o homem se responsabilize por suas ações inclusive, por isso repito novamente..." O livre-arbítrio do homem é a chave para entender por que a maioria das pessoas irá perecer no inferno mesmo que Deus queira que todos sejam salvos. Assim, a vontade de Deus em relação a salvação do homem pode ser resistida ou recusada, pelo homem para sua própria condenação eterna contrariando evidentemente o que o calvinismo em todas as suas variações afirma."

Essa segunda pergunta calvinista se basea na passagem bíblica sobre Deus ter endurecido o coração de Faraó.... só, que esqueceram que Deus em sua onisciência sabia de antemão exatamente como Faraó iria agir, e ele usou isso para realizar os seus propósitos. Portanto é importante notar que Faraó primeiramente endureceu o seu próprio coração. No início, quando Moisés aproximou-se de Faraó com vistas à libertação dos israelitas (Êx 5:1), Faraó respondeu: "Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel" (Êx 5.2).

Ou seja, Deus pode usar nossas escolhas para cumprir seu propósito, isso não indica que nossas escolhas foram pré-determinadas...siguinifica que nosso livre-árbitrio não afeta em nada a soberania divina.

Portanto repito, o livre-árbitrio nos foi dado para fazer escolhas morais. Só a liberdade absoluta seria contrária à soberania absoluta de Deus. Mas a liberdade humana não é uma liberdade absoluta, nosso livre-árbitrio é limitado apenas a escolhas morais. Os seres humanos não estão livres para tomar decisões que são exclusivas a Deus, por exemplo, a ninguém foi dado a liberdade de condenar outra pessoa ao inferno, ou de oferecer a salvação a alguém. Só quem tem toda essa liberdade para fazer isso e tudo o mais, é Deus, e os seres humanos não estão livres para se tornarem um Deus. Um ser contingente não pode tornar-se um Ser Necessário. Pois um Ser Necessário não pode ser criado. Deve ser sempre o que é. E só Deus É o que É! O poder do livre-arbitrio é nos dado por Deus, não mas o exercício da liberdade de escolha é causado pela pessoa. O eu é a primeira causa das ações pessoais. E dessa forma, somos responsáveis por nossas escolhas e por elas seremos cobrados.

Alguns calvinistas argumentam que apesar de Adão ter livre-arbítrio (Rm 5.12), os seres humanos pecadores estão escravizados pelo pecado e não estão livres para atender a Deus. Mas essa posição é contrária ao chamado constante de Deus a que os homens se arrependam (Lc 13.3; At 2.38) e creiam (por exemplo: J0 3.16; 3.36; At 16.31), e às afirmações diretas de que até os incrédulos têm a habilidade de reagir à graça de Deus (Mt23.37;J0 7.17;Rm7.18; lC09.17;Fm 14; lPe5.2).

Isso siguinifica dizer que a salvação não é pela graça mas sim pelo esforço humano? Ora, de maneira alguma, pois a habilidade de uma pessoa receber o dom gracioso da salvação de Deus não é o mesmo que trabalhar por ele. Pensar assim é dar crédito a quem recebe o dom, e não ao Doador, que o dá graciosamente. Da mesma forma, rejeitar a oferta de salvação, não implica em nada contra a eficiência da oferta como eu já abordei acima.

Agora vamos a terceira pergunta mais rídicula que já ouvi de um calvinista:

3 - Porque então orar para Deus converter a pessoa, se é a pessoa que escolhe seguir a Deus pelo seu livre arbítrio ? Você está orando para que ? Para Deus passar por cima do livre arbítrio da pessoa?

Resposta: 

Oramos para que Deus tenha misericordia dessa pessoa, oramos para que o Espirito Santo possa tocar a pessoa e que ele saia do erro, para que Deus possa agir, operar levando a pessoa ao camiho da salvação pra isso que oramos, se a pessoa vai aceitar ou não..isso é opção dela..além do mais, não é a Bíblia que nos ensina assim?? Ora essa pergunta só complica a quem? Se não engano, é um tiro no pé do própio calvinista.
 
Será que Deus nos faz de tolos, já que ele mesmo nos manda orar e interceder e pregar para aqueles que ele mesmo predestinou a perdição?? Será que Deus fazia os profetas de bobos? Pois Ele os mandava pregarem arrependimento a gerações que Ele mesmo escolheu que seriam ímpios.
 
Portanto termino esse esboço inicial, com uma simples pergunta que nenhum calvinista respondeu coerentemente sem se contradizer criando um paradoxo:
 
"Como entender as inúmeras vezes em que Deus fica irado com a incredulidade e desobediência das pessoas? Por que essa ira se (segundo o calvinismo) foi Ele mesmo que "predestinou" essas pessoas a viverem longe dEle? Os calvinistas costumam dizer que Deus não predestinou ninguém para a perdição. Mas nesse caso Ele poderia ter predestinado-as à salvação e não o fez. Se decidiu não salvar a pessoa então porque irar-se com alguém que é incapaz de converter-se sem ajuda do Espírito Santo?"
 
Só pra constar..não sou arminiano..... apenas não me é correto, crer em um ensinamento que põe em antagonismo aberto demais ensinamentos bíblicos, pra mim, se uma doutrina é complicada, ela deve ser rejeitada sem questionamento. 

 O Calvinismo exalta a graça de Deus como a única fonte de salvação  e assim o faz a Bíblia e também creio; o Arminianismo acentua a livre vontade e responsabilidade do homem e assim o faz a Bíblia e eu também creio. E como diz, Myer Pearlman:

A solução prática consiste em evitar os extremos antibíblicos de um e de outro ponto de vista, e em evitar colocar uma idéia em aberto antagonismo com a outra. Quando duas doutrinas bíblicas são colocadas em posição antagônica, uma contra a outra, o resultado é uma reação que conduz ao erro." 

É inevitável defrontarmo-nos com mistérios quando nos propomos tratar as poderosas verdades da presciência de Deus e a livre vontade do homem; mas se guardamos as exortações práticas das Escrituras, e nos dedicamos a cumprir os deveres específicos que se nos ordenam, não erraremos.

"As coisas encobertas são para o Senhor Deus, porém as reveladas são para nós" (Deut. 29:29).

 

 

Att: Elisson Freire.